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Os pecados de AVB

por TM, em 18.12.13

Terminou mais uma fase da carreira do jovem treinador português André Villas-Boas. Importa analisar as razões que levaram a mais um fracasso em Inglaterra (depois do Chelsea), até porque existem opiniões muito díspares em relação ao trabalho daquele que desde cedo foi apelidado de "novo Mourinho" (muitos o foram, mas pelo que fez no Porto foi aquele que mais vincadamente se aproximou).

Penso que é importante começar sempre pelo início. Na Académica, AVB mostrou que podia ser um treinador interessante para uma equipa melhor, o que despertou o natural interesse do Sporting e seguidamente do Porto, depois de uma época em que os Dragões perderam o título para o rival Benfica. Adepto da equipa, rumou ao Porto para conseguir uma época quase imaculada, com vitória no Campeonato, Taça e Liga Europa. A equipa aumentou consideravelmente o seu rendimento e vincou o seu domínio terminando o campeonato invicta, goleando pelo meio o campeão em título Benfica, por 5 a 0. Abro apenas um pequeno parêntesis para destacar que, nas primeiras jornadas foram notórias as dificuldades da equipa em vencer, contando inclusivamente com algumas ajudas externas que fizeram a equipa embalar e auto-motivar (quem me conhece sabe que não perco muito tempo a desculpar fracassos/sucessos com arbitragem, mas este caso específico foi demasiado claro, ainda para mais enquanto o rival Benfica ia perdendo pontos, não necessariamente sem ter culpa própria).

Terminada a época de sucessos na sua "cadeira de sonho", o convite do Chelsea foi demasiado tentador e levou um outro português para o banco dos "Blues". Contratou Juan Mata e começou por aproveitar Sturridge numa posição algo idêntica à que tinha Hulk no seu Porto. A época começou relativamente bem, mas algumas derrotas, principalmente com as principais equipas inglesas (destaque por exemplo para o 3 a 5 frente ao Arsenal em pleno Stamford Bridge) foram colocando dúvidas sobre a continuidade do técnico. A derrota no San Paolo frente ao Napóles, na 1ª mão dos Oitavos-de-Final da Champions foi a gota de água que o fez ser demitido. Pelo meio, problemas notórios com alguns pesos pesados do balneário do Chelsea, como por exemplo Lampard, um jogador que demonstra ainda está época que tem valor para ser parte integrante e regular do 11 dos azuis.

O Chelsea acabaria por vencer a Taça de Inglaterra e a Champions, mas com Di Matteo no comando técnico. E com a decisão de Daniel Levy de não continuar com Harry Redknapp no Tottenham, AVB foi o escolhido para este interessante projecto, num clube com um plantel muito interessante, um jogador que estava a afirmar-se cada vez mais na alta roda do futebol mundial (Gareth Bale) e outros elementos como Van der Vaart e Modric que seriam garantes de qualidade nas opções.

Foi uma época que classifiquei como razoável, mas que muitos classificaram de excelente! Entendo a análise para quem gosta de ver apenas o lado positivo, por ter sido o treinador do Tottenham que fez mais pontos no campeonato em muitos, muitos anos. Mas falhou em todas as competições, Taça da Liga Inglesa, Taça de Inglaterra e na Liga Europa onde era claramente um dos favoritos! No campeonato, ficou em 5º e falhou o objectivo champions. Tudo isto com o melhor jogador do campeonato, Bale, que era de facto a única coisa boa que se foi vendo na equipa dos Spurs. Foi impressionante, não só pela qualidade individual que evidenciava mas também pela incapacidade do conjunto, a quantidade de jogos que Bale literalmente ganhou para a equipa do Tottenham. E quando não havia mais soluções, Bale arrancava pela direita em direcção ao meio, visava a baliza e... resolvia! O Tottenham foi isto durante principalmente a 2ª parte da época (o arranque de Bale não foi imediatamente bom), numa equipa que ficou efectivamente órfã de Modric mas que perdeu Van der Vaart por razões ainda por saber (se por problemas entre treinador e jogador, se apenas porque o jogador se desmotivou e quis sair quando percebeu que podia não ser opção regular para o 11). Mas foi também a equipa que se mexeu muito bem no mercado de transferências, mesmo não garantido o desejo de AVB, João Moutinho. Foi confirmado Adebayor, que no ano anterior tinha estado emprestado pelo City, mais Verthongen e Dembelé, dois belgas de grande qualidade.

Como já referi, as opiniões dividiram-se e parecia ser certo para muitas pessoas que o que AVB tinha conseguido era um feito extraordinário, como se fosse algo que o ex-treinador dos Spurs não tivesse feito nos anos em que comandou a equipa, tendo mesmo num desses anos retirado o City de Mancini da pré-eliminatória da Champions, garantindo o 4º lugar. E o português ficou, parecendo certo que iria perder mais um jogador crucial, o já citado Bale.

Mas desta vez não era só o melhor jogador do plantel que ia sair, era o jogador que levou a equipa às costas praticamente toda a época. Não previ na altura sucesso para esta temporada, com a saída do galês, mas os Spurs atacaram o mercado de transferências com alguns jogadores interessantes e fiquei na expectativa: podia ser desta que AVB mostrasse e confirmasse seriamente o seu valor. Enganei-me...

A equipa foi sobrevivendo enquanto conseguiu sofrer muitos poucos golos, vencendo alguns jogos por 1 a 0 com golos de penalty. O processo ofensivo da equipa era no mínimo sofrível e sentia-se que a coisa poderia descambar a qualquer momento. Não podia haver melhor sítio do que o Etihad para isso acontecer, com o City a vencer por duros 6 a 0! Nesse jogo, voltou a estar a vista uma incapacidade em AVB que não entendo: usar os melhores jogadores, pois Dembelé ficou no banco.

A estrutura que segurava o treinador abanou e naturalmente, também não podia haver um sítio melhor para culminar a relação de AVB com os Spurs do que um jogo no White Hart Lane contra o diabólico Luís Suarez e o seu Liverpool. 5 golos depois, AVB deixava de ser treinador do Tottenham (a perder 0 a 2 volta a tirar Dembelé aos 60 minutos de jogo...). E decididamente colocou um enorme ponto de interrogação sobre si: tem ou não qualidade para ser treinador de futebol em equipas de top?

Provavelmente ficará parado até ao final da temporada e depois talvez consigo trabalho num clube da média/alta de França, Espanha, mas também sabemos que não devemos subestimar o valor de Jorge Mendes em conseguir os melhores clubes e os melhores contratos.

Para mim ficam duas marcas claras da sua passagem por Chelsea e Tottenham, que acabam por anular e colocar dúvidas sobre o mérito do trabalho no Porto: Má qualidade do futebol apresentado e péssima gestão de recursos humanos, com jogadores de qualidade a serem colocados como segundas escolhas. Veremos o que o futuro lhe reserva...

 

PS: Atenção Mourinho, a má qualidade de futebol e os problemas com jogadores importantes não são exclusivos de AVB. Dos maus resultados nem preciso falar...

 

Saudações Desportivas

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Publicado às 11:45



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